Se existe uma palavra que eu gostaria que mais mulheres riscassem do vocabulário, ela é culpa.
Ao longo dos meus mais de 15 anos trabalhando com sexualidade feminina, perdi as contas de quantas mulheres chegaram até mim dizendo:
"Cláudia, acho que minha libido acabou." "Não sinto mais vontade de fazer sexo." "Meu marido acha que eu não o amo mais."
E, quase sempre, descubro que o problema não é a libido. O problema são as histórias que essas mulheres aprenderam a acreditar.
Nós crescemos ouvindo que uma mulher apaixonada sente desejo o tempo todo. Que um relacionamento feliz é aquele em que o sexo acontece naturalmente. Que, se a vontade diminuiu, alguma coisa está errada.
A verdade? Nada disso corresponde ao funcionamento da sexualidade feminina.
Por isso, quero conversar com você sobre alguns dos mitos que mais machucam as mulheres e que, muitas vezes, acabam afastando justamente aquilo que elas mais desejam: uma vida sexual leve, prazerosa e sem culpa.
Mito 1: "Se eu amasse meu parceiro, sentiria vontade o tempo todo."
Esse talvez seja o mito que mais gera sofrimento.
No começo de um relacionamento, tudo é novidade. O cérebro libera grandes quantidades de dopamina, e o desejo parece surgir sem esforço. Mas relacionamento não vive para sempre na fase da paixão. Ele amadurece. E isso muda completamente a forma como o desejo aparece.
Hoje sabemos, graças às pesquisas da psiquiatra e pesquisadora Rosemary Basson, que muitas mulheres vivem o chamado desejo responsivo.
Traduzindo? Elas não sentem vontade antes. Sentem vontade depois que começam a se conectar. Depois do abraço. Depois do beijo. Depois da conversa. Depois do carinho.
O desejo não desapareceu. Ele apenas mudou de caminho. E isso é completamente saudável.
Mito 2: "Minha libido depende apenas dos meus hormônios."
Os hormônios influenciam. Mas eles não comandam a sua sexualidade sozinhos.
Eu costumo dizer que a libido é como uma planta. Não adianta regar apenas um lado. Ela precisa de vários cuidados ao mesmo tempo. Sono. Bem-estar. Autoestima. Menos estresse. Tempo para o casal. Conexão emocional. Segurança.
Tudo isso conversa com o seu desejo. A sexualidade feminina acontece no corpo, mas começa no cérebro.
Mito 3: "Se eu não lubrifico, é porque não tenho desejo."
Essa confusão acontece com muita frequência. Lubrificação e desejo não são sinônimos.
Uma mulher pode estar completamente envolvida com o parceiro e, ainda assim, apresentar pouca lubrificação por causa da menopausa, da amamentação, do uso de anticoncepcionais, de medicamentos ou até do estresse.
Da mesma forma, o corpo pode lubrificar sem que exista desejo.
É por isso que usar um lubrificante íntimo não significa que existe um problema. Significa apenas que você escolheu mais conforto para viver aquele momento.
Mito 4: "Vibradores substituem o parceiro."
Sempre sorrio quando escuto isso. Porque acontece exatamente o contrário.
Um vibrador não substitui ninguém. Ele não abraça. Não beija. Não conversa. Não cria intimidade. Ele é apenas uma ferramenta. E ferramentas servem para ampliar possibilidades.
Quando um casal entende isso, algo muito bonito acontece. Eles deixam de enxergar o brinquedo como um concorrente e passam a enxergar como um aliado. Um aliado para descobrir novas formas de tocar, de provocar prazer, de rir juntos e de sair da rotina.
Sexo não precisa ser sempre igual. Aliás, o cérebro adora novidade.
Mito 5: "Depois de tantos anos juntos, é normal perder o desejo."
Eu faria apenas uma pequena mudança nessa frase. Não é o tempo que diminui o desejo. É a repetição.
Quando tudo acontece sempre da mesma forma, o cérebro deixa de ser surpreendido. E sem novidade, ele economiza energia. O desejo gosta de curiosidade. De expectativa. De pequenas mudanças.
Às vezes, basta mudar o ambiente. Experimentar um lubrificante diferente. Investir em uma lingerie que faça você se sentir bonita. Conhecer um sex toy. Criar um momento só do casal.
São pequenos movimentos que lembram ao cérebro que ainda existe espaço para descobrir.
Mito 6: "Existe uma libido normal."
Essa pergunta aparece praticamente todos os dias. "Cláudia, qual é a frequência normal?" Minha resposta costuma ser outra: normal para quem?
Cada mulher tem uma história. Cada relacionamento vive uma fase. Cada corpo responde de um jeito.
O problema nunca foi fazer sexo uma vez por semana, três vezes por mês ou todos os dias. O problema começa quando o desejo deixa de representar aquilo que faz sentido para você.
Não compare sua intimidade com a de outras pessoas. Compare apenas com aquilo que você deseja viver.
Quero que você guarde uma ideia
Se eu pudesse deixar apenas uma mensagem depois de tantos anos estudando sexualidade, seria esta: a libido não é um botão que liga e desliga.
Ela responde ao ambiente. Ao cansaço. À qualidade da relação. À forma como você enxerga seu próprio corpo. Ao toque. À segurança. À conexão.
Por isso, antes de concluir que existe algo errado com você, questione as crenças que aprendeu ao longo da vida.
Talvez o problema nunca tenha sido a sua libido. Talvez tenham sido os mitos que colocaram sobre ela.
Na Sussurra, acreditamos que informação transforma a forma como uma mulher vive sua sexualidade. Porque quando o conhecimento substitui a culpa, sobra espaço para algo muito mais importante: o prazer.
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Afinal, viver a sexualidade também é experimentar, conhecer e se permitir. Boas descobertas. Nós estamos felizes por fazer parte delas.